Reconheço ter dificuldade em me expressar com relação ao cara. Sou psicólogo, 'mezzo psicanalista', e me aventuro para além do que sei na música, tudo isso graças a ele. Claro, tenho também outras referências, mas nenhuma corre nas veias como a dele. Idéias, músicas, letras, totalmente à revelia, fazendo, acontecendo e botando pra correr. Saca só:
"No teatro, tem uma coisa assim: os atores falam, com relação a televisão e o mercado, que eles preferem o teatro como exercício da atuação. A televisão é um barato, mas não dá o aqui e agora do negócio. Pra mim, o que acontece, é que eu não tenho esse problema, não sou colocado fora do meu universo nunca. Sempre estou no meu universo. Pra mim é ao vivo, tudo acontece ali. É aí que está o teatro pra mim na música. É assim que eu levo o teatro. É como o jazz, como a linguagem musical do jazz, faz na hora, improvisa, leva até as últimas conseqüências o agora, amanhã vai ser outra coisa. Então, na minha música há esse teatro, onde não existe ensaio. Eu não ensaio. Ensaio até onde tenho que ensaiar pro show, mas a partir de um determinado momento, é o momento que vai dizer. Posso, de repente, estar no teatro Sérgio Cardoso, aí tô no Supremo Musical, no Ibirapuera. Então, é o lugar que vai me dizer. É aí que existe... Quando você está em contato com as pessoas, a química é essa. Então quando você se depara comigo, você se depara com surpresa. Eu tô sempre arrumando alguma coisa que alguém não sabe."
Acho que é por aí o que me pega. Tem um quê de deixar vir, de aflorar, de inconsciente, seus monólogos interlocutivos, e de levar tudo às últimas consequências, inclusive, eticamente falando.
"O que eu quero dizer é que Pretobrás é a liberdade do compositor depois de 18 anos do primeiro disco, é a liberdade de escolha, uma liberdade de vida. Olhe bem, tem essa música que gravei pra esse disco, “Dor elegante”, letra do Paulo Leminski, é uma música que fala da dor da cirrose. Eu a recebi de uma cara que morreu de cirrose e esse cara é um poeta. Então, pra mim o que vale é o sentimento do poeta que fez da sua vida sua obra. Artista pra mim é isso, não é ficar ali com o BMW dando tchauzinho. Posso até ter um BMW e sair ralando por aí dando tchauzinho pras mina também, mas fazer isso profissão é meio complicado. E o Paulo, com esse humor que lhe é peculiar, simplesmente no meio dessa dor terrível, no meio de uma das crises fez esse poema e me deu... “O homem com uma dor é muito mais elegante, caminha assim de lado, como se chegasse atrasado e andasse mais adiante...” Então, acho que esse sentimento tem que ser interpretado por quem entende disso. Seria o ideal que isso fosse sucesso popular, que o povo cantasse seu verdadeiro poeta. Não é político, não é letrista. É um poeta."
Sem dúvida é um cara que faz falta! Porém, seu legado está aí. "Agora, sem Itamar, resta-nos redescobri-lo. Não pelo compromisso moral ou pelo culto aos símbolos que estão fora do mercado. Resta-nos redescobri-lo como uma interrogativa, como a necessidade de se questionar, principalmente os ídolos. Daí nascem o artista e o caminho que se deve seguir."
Trechos extraídos do site gafieiras, leia a entrevista na íntegra.
Deus te preteje!

